Por acaso ou por destino

Por acaso ou por destino

Vários autores (estou aqui usando o famoso pressuposto acadêmico de autoridade) já referiram o misticismo como um mal que tende a afetar os indivíduos mais fracos, aqueles que não aceitam a desilusão do mundo real e preferem se refugiar em suas redomas de transcendência.

Eu sou um desses seres vulneráveis, mas a amargura também tem o efeito colateral do ceticismo, e às vezes rasgo bíblias e tarôs tentando me afastar do ópio imaterial… contradições de uma lua em Áries e um ascendente em Peixes, diria meu astrólogo. Crises de referência, diria meu psicólogo… Mas o que diria meu filósofo?

Um amigo me emprestou dois livros do Wilian Fernandes Pereira no começo do ano, o Por Acaso ou por Destino e o Discurso Vazio. Os dois ficaram criando crosta de poeira brasiliense na estante, e o rapaz mos pediu de volta, falando claramente “você não leu mesmo”. Que vergonha… ou não… O fato é que hoje eu estava “propensa” e esses livros inevitáveis me chamaram a atenção…

Eu precisava.

Segue trecho do Por acaso ou por destino – Livro-jogo/ Ficção filosófica de múltipla escolha:

Parágrafo 8

“É, nem sempre se pode saber de tudo. A isto damos o nome de aporia.

Aporia é a situação de algo que não tem poros, não tem saída. Muitos diálogos terminam em uma aporia, em um ponto em que não temos mais como saber ou como fabricar uma resposta última. Muitas pessoas acham que é uma coisa ruim você não ter as respostas todas. Nós, no entanto, que somos meninos curiosos, às vezes temos de aceitar o tempo que algumas respostas demoram para ser formuladas, alcançadas, sintetizadas.

Muitas vezes, forçar uma decisão é como arrancar da árvore uma fruta verde e comê-la, bem azeda, só para provarmos que era isso mesmo o que queríamos; e que aquela é a melhor fruta do mundo.

Reconhecer-se numa aporia nada mais é do que dar tempo à própria sabedoria. Se o vento tivesse pressa, aposto que ele não chegava a lugar nenhum. Boa sorte nos seus questionamentos. Continue sendo esta criança brilhante e maravilhosa. Uma pergunta é como uma velha porta: ainda que ela não se abra hoje, certamente existirá uma chave que, algum dia, desvende o seu conteúdo. Tenha paciência. A filosofia se faz lentamente… Fim.

A estrutura do livro é lúdica. Você começa a ler e aparecem várias opções a serem feitas. Tudo começa com o encontro do menino com a lesma. O autor logo indica: vá para § xis se você quer saber mais sobre a lesma, para § ípsilon se não se importa com lesmas, por exemplo. Você segue para o parágrafo escolhido até chegar ao parágrafo final. O parágrafo 8 foi meu fim natural, mas poderia ter sido o 6 (final feliz em que o menino dorme um sono tranqüilo, talvez o prenúncio de uma vida sem muita curiosidade), o  angustiante 10 (prenúncio suicida de alguém que nunca saberá a diferença entre acaso e destino) etc.

Coube-me o 8… Reflitam cabalisticamente, se o quiserem.