Brasília pode ser diferente…
Outubro 15, 2008

Hoje resolvi vir estudar no Espaço Cultural Renato Russo e daqui publico este post. Interessante estudar numa biblioteca pública vazia (agora vai vir todo mundo pra cá, já que estou divulgando o espaço), com incenso aceso e música ambiente… Como é bom lembrar que a cidade não se resume à tensa Esplanada…
Na cidade com Clarah Averbuck e as sinapses de adrenalina
Julho 17, 2008
Eu tinha tido idéia de escrever este post na segunda-feira, quando fui sozinha ao Casa Park ver filmes da Embracine. Tive que voltar de trem pela estação metroviária perto do Carrefour. Vi várias mulheres andando sozinhas na noite fria, provavelmente assustadas como eu, alvos fáceis, nós. Mas refleti que várias mulheres sozinhas formavam uma multidão, então, pra quê o medo? Tá, não resolve nadinha quando você tem que sair da CasaPark e atravessar um terrenão escuro até o Carrefour, depois, mais escuro até chegar à estação.
Agora minhas sensações perderam o frescor e talvez nem valesse a pena escrever aqui. Só registrar pensamentos esparsos, que tive no longo e tenebroso trajeto, como me prometer assistir ao Nome Próprio do Walter Salles, cujo trailer vi antes do filme que fui ver.
Esse Nome Próprio, com a Leandra Leal gordinha e de cabelo escuro (ou seja, antes de sair na capa dessas revistas femininas de dicas de emagrecimento), parece… parece que vai ser bom. Baseado nos três livros da Clarah Averbuck, pelo que li. Ela é bem criticada, por escrever “literatura de consumo”. Acho essas críticas vazias. Quer dizer que nós devemos trabalhar para sermos fracassados? Pelo que entendo, “literatura de consumo” é essa que vende mais e, ao que parece, critica-se que livros sejam vendidos, ao mesmo tempo em que se critica que eles não sejam lidos. Vai entender!!!!
Em todo caso, o que eu já sabia da Averbuck é que ela faz parte da “nova literatura brasileira”, entendamos por isso gente nascida a partir da década de 1970 e que anda publicando agora por sua casa de Balzac e que a Internet tinha impulsionado sua carreira literária, sobretudo por meio de blogs. Ontem fui tirar a limpo essa informação e aproveitei pra baixar um e-book do primeiro livro dela, o Máquina de Pinball. Acho que o mais válido são as referências à cultura musical. Ponto. Mais uma história de uma garota que quer se tornar escritora. Mas até que isso me atrai sempre. A mim e a muita gente, a julgar pela vendagem do tema.
Enfim… não pensei muito no Nome Próprio enquanto voltava pra casa. Eu estava com frio e com medo. Segundo um amigo, essa segunda-feira foi a noite mais fria do ano em Brasília. Eu ia caminhando e apenas lampejos de preocupações culturais faiscaram pra exercitar partes de meus neurônios, enquanto o resto se ocupava de sinapses com adrenalina. Noite fria. Gente medonha. Eu sozinha. Várias mulheres sozinhas, o que me tranqüilizava um pouco.
Na estação, fiquei com medo de ter ido pro lado errado, apesar de todas as placas, mas é que, como sou desorientada, corro sempre o risco de me perder, principalmente sozinha e em noites frias.
Lado certo. Sentado sozinho num canto, um homem suspeito. Suspeito e, portanto, talvez imaginando que eu fosse ter medo dele, mas o efeito surpresa pode jogar a nosso favor, então corri até ele e puxei conversa. Ele se assustou. Começamos a conversar. Ele era o único do mesmo lado que eu na estação, se me fizesse algo, eu teria que atravessar a linha amarela, cair no fosso, ficar sob um vagão (!) e, só então, escalar para atravessar e ficar com as pessoas do outro lado. Mas aí puxei papo e o homem era pintor.
Logo comecei a praticar em minha conversa com ele um hábito que tenho: o de tentar enriquecer minha vidinha sabendo o que os outros fazem. Sim, os outros, os anônimos. Suas vidas são tão mais interessantes do que imaginamos.
Ali, em minha conversa, informei-me da situação do mercado para pintores, soube os nomes de algumas técnicas de pintura em relevo e fiquei a par do fato de que ele estava a caminho da estação da 108 Sul para andar de lá até a 404 sul, onde cuidaria da decoração de uma loja de luminárias. A tarefa dele era alargar as pilastras utilizando gesso, criar uma superfície lisinha e, depois, pintar uma das colunas de preto e, a outra, de branco. Uma loja new rich.
Perguntei quais eram as perspectivas de crescimento no ramo. Ele respondeu que pintura em 3D era uma boa, que se o sujeito entendesse dos programas de informática, saía adiantado em relação aos concorrentes. Perguntei se ele mexia com Autocad e ele perguntou, de volta, se eu mexia com informática. Eu disse que não. Ele: como você sabe do Autocad. Eu: eu leio os anúncios de emprego, sempre exigem esse Autocad, aí eu fui ver o que era. Ele: mas com o que você trabalha? Constrangimento. Dizer pra ele que eu era uma recém-formada que pretendia se dar o luxo de apenas estudar por mais um semestre, sem trabalhar? Hmmm… eu… trabalho com… ciências humanas. Patético. Foram necessários quatro anos para me convencer dessa expressão (“ciências humanas”), que antes eu julgava oca e pretensiosa. Mas ele deve ter entendido que era medicina, fisioterapia, enfermagem, então eu era uma pessoa útil à sociedade e merecia respeito.
O homem continuou a conversar. Morava em Sobradinho, tinha uma filha em Águas Claras, almoçara com ela e gastara mais de trinta reais por uma simples refeição. Tudo era caro no DF. Aham, concordei. Olha, aqui é a 108 Sul. Ele se despediu esbaforido e se perdeu na noite fria e seca do deserto do Planalto Central.
A segunda.
Eu já tinha descido na Rodoviária e agora estava no meu inédito L2 Norte/ W3 Sul, Sul mesmo. Uma garota da minha idade, com o semblante mais feliz do mundo, cuidava de um tricot verde. Eu fiquei olhando, perdida nas entradas e saídas da agulha, quase em transe… Ela desceu na mesma parada que eu e, sei lá, meu Mercúrio estava ensandecido pelo mapa astral aquela noite, fui puxar conversa com ela até em casa, éramos duas mulheres sozinhas e amedrontadas por não serem número suficiente para formar uma multidão na noite fria, escura e deserta. Dicas de tricot. Quais as melhores revistas, as melhores técnicas para começar sozinho, os armarinhos mais próximos. Eu viro aqui. Eu fico aqui. Tchau. Tchau.
Como dizem nossos pais, a gente aprende muita coisa na rua.
