Nunca tive a oportunidade de usar esta palavra (frontispício) e acho por bem criar uma ocasião para não desperdiçar a aprendizagem da língua.

Estava eu, Livia Drusilla, desesperada (novidade) com meus projetos quando uma palavra (sentença) de consolo me cai no colo ao acaso. Eu, como uma bibliomante (também nunca pude usar essa palavra), abria aleatoriamente o Culturas Híbridas do Canclini e lá estava no frontispício (aham!) do livro a seguinte citação (em espanhol, apesar do autor ter nome francês):

“La vida personal, la expresión, el conocimiento y la historia avanzam oblicuamente, y no directamente, hacia fines o hacia conceptos. Lo que se busca demasiado deliberadamente, no se consigue.” (Maurice Merleau-Ponty)

O que tenho eu procurado “demasiado deliberadamente”? Acho que nada, porque deliberar já demanda muita energia, então, quando delibero, já estou tão cansada que vou fazer outra coisa (descansar, dÂr!) em vez de procurar o que seja…

Para que este post pareça ter tido um propósito, ficamos neste ponto de consolação (ou de angústia): a vida é oblíqua, portanto, sigamo-la obliquamente. Ou será que seguir obliquamente o que é oblíquo é desviar ainda mais o caminho?

Engraçadinho

Setembro 20, 2009

POEMA ESCRITO POR ELE (o noivo):

Que feliz sou eu, meu amor!
Já, já estaremos casados,
o café da manhã na cama,
um bom suco e pão torrado

Com ovos bem mexidinhos
tudo pronto bem cedinho
depois irei pro trabalho
e você para o mercado

Daí você corre pra casa
rapidinho arruma tudo
e corre pro seu trabalho
para começar seu turno

Você sabe que de noite
gosto de jantar bem cedo
de ver você bem bonita
alegre e sorridente

Pela noite mini-séries
cineminha bem barato
nunca iremos ao shopping
nem a restaurantes caros

Você vai cozinhar pra mim
comidinhas bem caseiras
pois não sou dessas pessoas
que gosta de comer fora…

Voce não acha querida
que esses serão dias gloriosos?
Não se esqueça meu amor
que logo seremos esposos!



POEMA ESCRITO POR ELA (a noiva)

Que sincero, meu amor!
Que oportunas tuas palavras!
Esperas tanto de mim
que me sinto intimidada

Não sei fazer ovo mexido
como sua mãe adorada,
meu pão torrado se queima
de cozinha não sei nada!

Gosto muito de dormir,
até tarde, relaxada
ir ao shopping fazer compras
com a Mastercard dourada

Sair com minhas amigas,
comprar só roupa de marca
sapatos só exclusivos
e as lingeries mais caras

Pense bem,que ainda há tempo
a igreja não está paga
eu devolvo meu vestido
e você seu terno de gala

E domingo bem cedinho
pra começar a semana,
ponha aviso num jornal
com letras bem destacadas

HOMEM JOVEM E BONITO
PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
POR QUE SUA EX-FUTURA ESPOSA
MANDOU ELE IR PRA MERDA!!!!!!


Máscaras – você usa

Setembro 1, 2009

Um tipo de pessoa de que não gosto é aquele que critica os mascarados: “Ah, odeio gente falsa, que mostra ser uma coisa quando é outra.” Outro tipo de que não gosto, claro, é do tipo de gente mascarada. Aí, de um modo ou de outro, eu não gosto de mim, seja porque falo mal dos mascarados, seja porque uma hora ou outra uso máscaras – aliás, como você!

E quando usamos máscaras? Digo que sempre. Às vezes é uma máscara fina, mais próxima dos contornos reais do nosso rosto. Em outras ocasiões é uma máscara espessa, enfeitada. Pode até ser, também, uma máscara mais feia que nosso rosto (quando nos odiamos nos comportamos como monstros que não somos de fato) – mas sempre há uma máscara.

O que me trouxe a todas essas reflexões dispensáveis além do ócio depois de uma longa, cansativa e pouco reconhecida jornada de trabalho?

Talvez o fato de que justamente no meu trabalho eu ando estressada demais e estou vendo a hora de dizerem que eu não sou boazinha como parecia ser. Afinal, me contrataram como uma pessoa “calma, organizada e equilibrada” e, nos últimos tempos, eu não ando assim. Mas será que era máscara que eu estava usando quando vendi essa imagem? E agora? Será que também não estou usando uma máscara de malvada e estressada para chamar atenção para demandas que considero justas?

Afinal, respondo que sempre usamos máscaras e que isso não é um problema – ora, não sejamos hipócritas: quem conhece o próprio rosto? Todo mundo usa máscaras o tempo todo: você jamais poderá ter certeza de que se viu no espelho.

Viva o baile de máscaras! A vida é um carnaval!

4:44 am

Pra você que me faz sonhar contigo às noites que não deveriam ter sonhos e me acorda de madrugada para me lembrar o que pode ser amor…

Ela se arrastava na praia no meio da noite. Teria que dormir ao relento e pensava em como era mais cômoda a vida dos funcionários públicos em férias e dos estrangeiros que podiam pagar hotéis e dormir em segurança. O homem que lhe pagara o jantar poderia tê-la convidado para dormir com ele. Agora ela quase desejava que ele o tivesse feito mas, horas antes, a simples idéia lhe causara repulsa.

O cenário da praia escura era-lhe onírico porque, apesar de não haver luar, ela percebia claridade suficiente para prosseguir até a placa amarela onde estava escrito em tinta vermelha: Gipsy Cards, Tarot. Ali ela dormiria aquela noite, lembrando-se da mulher com o estranho jogo de cartas e o que ela lhe predissera:

- Você vai voltar – e ela depositou na toalha sobre a areia a carta com a figura de um navio engraçadinho, parecido ao que uma criança desenharia. A seguir: – Mas olha só o que está no teu caminho – e ela depositou atravessado sobre essa carta uma outra, formando as duas uma cruz. Essa carta parecia um navio fantasma ou o esqueleto de uma embarcação naufragada que agora navegava sobre o mar de uma outra dimensão. Deu a seguir a interpretação: – Pode ser que você não queira voltar e esse é o maior obstáculo…

Lea arrumou-se sobre a toalha e encolheu-se para tentar dormir. Até sabia com o que sonharia. Há certos pensamentos que uma pessoa tem antes de dormir que se desenvolvem em sonhos quase conforme nossa vontade consciente. Era ótimo imaginar coisas boas e desejáveis e saber que elas seriam reais ao menos numa outra realidade.

Uma crítica interessante ao filme Cão sem dono (Beto Brant e Renato Ciasca, 2007) escrita pelo ótimo Luiz Carlos Oliveira Jr.:

“O protagonista de Cão Sem Dono é Ciro, jovem multitalentoso, inteligente, plenamente capaz, mas cuja vida parece de alguma forma estacionada, inflacionada de instantes intensos mas carente de ambições concretas, chapada no presente, desconectada de um horizonte. Retrato bastante pertinente de uma parcela da juventude atual, em falta ou em excesso de opções – adolescentes duráveis (…)”

Aplicável?

Luciana Avelino da Silva

Abril 25, 2009

Carmen Miranda não era flor que se cheirasse

Hitler era uma mulher que tomava hormônios para criar barba (especificamente, aquele bigodinho); Mussolini e Mao Tsé-Tung também eram mulheres (mas gostavam da cara e, no caso do Mao, também cabeça, limpinha) e Thatcher é lésbica e não gosta de transexuais.

A verdade segundo Luciana Avelino da Silva…

Esse é um volume de crônicas publicadas em jornais do começo do século XX. Trata da conjuntura social, política, econômica e cultural do país e lança luz sobre a controvertida personalidade de um dos mais conhecidos intelectuais do país. Eu mesma tenho uma visão negativa do Lobato, desde que li, aos meus seis anos, a Emília dizer que a tia Nastácia não veria o anjinho que chegara ao sítio porque anjos não visitavam pessoas pretas, mas peguei do volume porque era uma antevéspera importante pra mim, a sexta-feira passada e eu, meio crente nessas “coincidências”, achei que valia a pena lê-lo ao menos enquanto aguardava no café da livraria… Segue excerto do livro, mais especificamente, do prefácio à 1ª edição, de 1933, e que foi modificado em 1946:

“Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona tal qual antena – e disso vem o valor da literatura. Por meio dela fixam-se aspectos da alma dum povo, ou pelo menos instantes da vida desse povo.”

Sacada

Fevereiro 23, 2009

 

Chuveiro do vizinho

Chuveiro do vizinho

Uma sacada romântica cuja vista é a janela do banheiro do vizinho.

Recostada nessa sacada, você pode passar a noite inteira esperando que essa luz se acenda e você possa ver, simplesmente, o chuveiro. Ainda assim, apenas parte dele. Nunca é possível ver a água cair e imaginar que alguém está imaginando coisas enquanto toma banho. Você não pode imaginar que a pessoa cronometrou o banho para ganhar tempo enquanto a água do café ou do macarrão instantâneo ferve na cozinha. Não pode imaginar que ela o abriu para deixar a água esquentar enquanto escova os dentes. Não pode imaginar que ela toma banho pensando se ainda terá xampu ou se o chefe irá perceber, no dia seguinte, que ela redigiu um ofício com o nome do chefe anterior no lugar da assinatura do chefe atual.

Você não pode imaginar essas coisas. Pode apenas imaginar que não pode imaginá-las e que isso é uma pena, pois se perdem, a partir delas, tantas infinitas coisas derivadas que também poderiam ser imaginadas.

Sobram, porém, outras coisas a serem imaginadas, infinitas outras, é verdade, mas um infinito limitado porque faltam aquelas.

E tudo porque você não vê nem ouve as gotas caírem.

Assim falava Zaratustra – escute (8min9seg):

As moscas da praça pública, Nietzsche

O que me parece é que buscamos profetas e líderes, já que não o somos de nós mesmos.