4:44 am

Pra você que me faz sonhar contigo às noites que não deveriam ter sonhos e me acorda de madrugada para me lembrar o que pode ser amor…

Ela se arrastava na praia no meio da noite. Teria que dormir ao relento e pensava em como era mais cômoda a vida dos funcionários públicos em férias e dos estrangeiros que podiam pagar hotéis e dormir em segurança. O homem que lhe pagara o jantar poderia tê-la convidado para dormir com ele. Agora ela quase desejava que ele o tivesse feito mas, horas antes, a simples idéia lhe causara repulsa.

O cenário da praia escura era-lhe onírico porque, apesar de não haver luar, ela percebia claridade suficiente para prosseguir até a placa amarela onde estava escrito em tinta vermelha: Gipsy Cards, Tarot. Ali ela dormiria aquela noite, lembrando-se da mulher com o estranho jogo de cartas e o que ela lhe predissera:

- Você vai voltar – e ela depositou na toalha sobre a areia a carta com a figura de um navio engraçadinho, parecido ao que uma criança desenharia. A seguir: – Mas olha só o que está no teu caminho – e ela depositou atravessado sobre essa carta uma outra, formando as duas uma cruz. Essa carta parecia um navio fantasma ou o esqueleto de uma embarcação naufragada que agora navegava sobre o mar de uma outra dimensão. Deu a seguir a interpretação: – Pode ser que você não queira voltar e esse é o maior obstáculo…

Lea arrumou-se sobre a toalha e encolheu-se para tentar dormir. Até sabia com o que sonharia. Há certos pensamentos que uma pessoa tem antes de dormir que se desenvolvem em sonhos quase conforme nossa vontade consciente. Era ótimo imaginar coisas boas e desejáveis e saber que elas seriam reais ao menos numa outra realidade.

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