Em tempos de BBB 10…
janeiro 18, 2010

Vamos deixar de lado o pseudointelectualismo (contra o qual este blog milita) e admitir: todo mundo vê BBB. Todo mundo mesmo: peões, empregadas, advogados, empresários, diplomatas (fui a uma palestra em que o diplomata conselheiro falava do programa)… escritores.
Esse romance da Amélie Nothomb, Acide Sulfurique, é sobre um reality show no formato de campo de concentração: todas as semanas, o público escolhe um prisioneiro/participante para o sacrifício – o paredão lá é de verdade, o sujeito realmente é morto. Uma interpretação do livro é de que ele nos leva a refletir sobre como nós, o público, somos morbidamente fascinados pelo sadismo, pela exposição do outro. Os produtores do programa não se saciam com os níveis de audiência: quanto maior o público, maior o empenho em espetacularizar os sacrifícios, em escolher os participantes mais vulneráveis e cuja morte seria mais dramática: velhos, crianças… Até que uma heroína é descoberta, uma mocinha típica, íntegra, inflexível em seus princípios, e a trama passa a girar em torno de sua possível eliminação. A opinião pública se organiza a favor de um boicote ao programa para que a participante não morra, mas, num paradoxo, a audiência se eleva de modo exponencial e o reality não tem por que sair do ar…
O livro é uma sátira da cultura de massas ocidental e de nossos valores contraditórios e hipócritas: criticamos o que degrada o ser humano, mas precisamos dessa degradação para preencher nosso vazio, como se o outro precisasse morrer (literal ou figurativamente, mas de modo sempre dramático) para nos satisfazer. Isso não vale apenas para reality shows em que pessoas comuns expõem a si e a suas famílias com um prejuízo maior do que os ganhos da publicidade, vale também para os programas policiais de alta audiência e nenhum poder para diminuir a violência, vale também, por mais difícil que seja dizer, para a superexposição de tragédias da classe média, como o deslizamento de terra sobre o hotel de luxo em Angra.
Por mais que o discurso explícito seja “Não queremos mais tragédias” ou “Não queremos seres humanos vigiados como cobaias”, existe um impulso para vermos as tragédias e os seres humanos no limite da dignidade. Muitas vezes, em relação às primeiras, nosso objetivo é nos comprometermos pelo menos dando atenção ao assunto, tomando consciência de que não foram só ricos que morreram em Angra, ah! também morreram umas pessoas pobres em outras partes, atinando para o como somos desengajados, enquanto Zilda Arns morreu no Haiti, enfim, querendo nos desculpar para nós mesmos por nosso imobilismo.
Quanto aos espetáculos dos reality shows, eles mostram como nós somos os fúteis que criticamos, como nós gostaríamos de estar no lugar das celebridades instantâneas que desfrutam de festas e bebedeiras por três meses de férias e, depois, ainda vão lucrar alguma coisa enquanto nós, os Homers, continuaremos aqui, no sofá, deixando nossas barrigas crescerem com Duff Beer.
Quem não gosta da Clarice
dezembro 27, 2009

Ilustração de pedrohenb
Falar mal da Lispector em certos círculos é uma heresia, é imperdoável ou, no mínimo, recebido com a complacência de quem pensa: “Pobre iliterato insensível, não sabe o que diz”.
Bom, separemos a mulher da escritora e do mito e talvez a literatura passe a ser uma atividade mais profícua tanto para quem a faz quanto para quem a consome (esse é o verbo, por mais mercadológico e capitalista que seja – qual o problema?).
Tenho notado que a arte tem sido valorizada mais pela imagem do artista do que pela obra e daí chegamos a uma realidade em que consumimos comportamentos, em que não analisamos criticamente mais nada e em que estamos deixando grassar o fundamentalismo estético… Fundamentalismo porque não se pode mais criticar sem ser considerado ignorante. Quer criticar? Escreva um artigo bem complicado e me mostre as suas credenciais de pós-graduação em literatura e de publicação em revistas especializadas. Mas se sou eu que perco meu tempo lendo o livro, por que minha crítica não é válida?
Um passeio por feiras de livros, por estantes de livrarias e sebos ou mesmo pelo Google indicam o verdadeiro culto dogmático a Clarice, indicam o quanto ela se tornou, nas palavras de um editor da (in)útil Desciclopédia, uma “máquina de fazer dinheiro da Rocco”. Tentei pesquisar alguém que não gostasse dos textos dela e o que essa pessoa diria, não porque eu mesma não goste dela (ela é a escritora que mais tenho lido), mas porque queria sair do redemoinho fanático e acrítico. Aqui reproduzo um texto sobre a autora. Não tem aquele cheiro de mofo nem aquele ar de crítico literário hermético, por isso vale a passada de olhos. Tirem suas próprias conclusões.
Por que não gosto da Clarice Lispector (Eduardo Haak)
COMO era gostosa a Clarice Lispector. Tenho uma foto dela aqui à minha frente: robusta, curvilínea, rosto cheio de ângulos interessantes. Mulheraça, mesmo. E dotada de uma personalidade que, ao que tudo indica, a habilitava plenamente ao papel de diva, de figura mítica que ela desempenhou e continua a desempenhar até hoje, vinte e sete anos depois de seu morte. Não passei imune por sua presença – uma época cheguei a ter certeza de que a Clarice era uma escritora absolutamente genial, mesmo sem ter lido nada seu. Como é que esse incensamento todo em cima de sua figura poderia não corresponder a um grau certamente alto de excelência literária? Então fui ler seus livros, com a reverência e solenidade de quem supõe ter em mãos algo tão precioso quanto o Santo Sudário.
Peguei o Água Viva. Nada. Não consegui passar da página trinta. Tentei o Maçã no Escuro. A mesma coisa. O Onde Estivestes de Noite. Aí eu li um livrinho dela (cujo título não me recordo mais) de uma flagrante e assumida clareza: ã-rã, dona Clarice, tu tá enrolando e sabe disso, não sabe? Assume, ipsis litteris, que tá de saco cheio de escrever esse livro, fala de suas rotininhas domésticas entediantes, tudo porque provavelmente teu editor tá te apertando pra que você entregue esses originais que já tinham que ter sido entregues e também porque você sabe que seus fidelíssimos leitores vão sempre, sempre achar que você, mesmo narrando uma coisa absolutamente irrelevante como ir até a cozinha despejar um cinzeiro na lata do lixo, está lhes dirigindo uma mensagem com um subtexto incrivelmente genial.
Comigo não, violão.
Lembro que vi uma vez uma entrevista que a Clarice deu, acho que para o Otto Lara Resende. O Otto todo cheio de dedos, tratando-a com a diva que ela era. Uma hora lá ele fez uma pergunta específica sobre um texto dela. E a diva respondeu, “Eu própria não entendo a maior parte das coisas que escrevo”. Pombas, gente! Ela própria assumiu que não entende e vamos nós nos metermos a entender? Mas esse é um problema das pessoas cujos mitos pessoais se tornam maiores do que elas mesmas – e maiores até que suas obras. Elas não conseguem desmentir “verdades” que se formam sobre elas, quase que à sua revelia. O John Lennon foi outra vítima dessa coisa do mito pessoal. Façam um teste: vocês conseguem imaginar o John Lennon fazendo cocô, indo ao dentista consertar uma obturação que caiu ou reclamando com o garçom que o bife está mal-passado? Impossível. A gente ouve o nome John Lennon e imediatamente se forma em nossa cabeça a imagem mítica do John, sentado àquele piano branco, cantando, “Imagine all the people, living for todaaaay”, com a japonesa flutuando ali, ao redor dele (brrrrr). O que ele humanamente dizia ou deixava de dizer era quase irrelevante ante essa onipresença mítica do São João Lennon e suas palavras bocós de paz e união entre os homens.
Mas voltemos à Clarice. Clarice, a dona-de-casa aborrecida e a escritora igualmente aborrecida que não entendia patavinas do que ela própria botava no papel. Interessante que sua literatura, arcana, obscura e supostamente misteriosa acabou servindo de paradigma para uma multidão de subliteratos que, não achando suficientemente nobres seus afazeres corriqueiros, se meteram a querer se expressar literariamente. E foram na fonte certa, os subliteratos, infalivelmente certa. Mistério é tudo o que desejamos quando nossas vidinhas óbvias e insossas deixam muito a desejar. Por essas e por outras, acho a mitificação da Clarice Lispector extremamente nociva à literatura brasileira. Seus livros abriram um precedente para que o obscuro e o ininteligível se impusessem como norma estética entre nós – e aí de quem depois disso se metesse a escrever com clareza e simplicidade. Seria tomado como um bobo, um ingênuo – ou, na melhor das hipóteses, como um escritor menor. Vide o Fernando Sabino, que todo mundo adora, mas a quem ninguém tem coragem de atribuir a excelência e a mestria que ele mais do que merece. Sim, o establishment universitário precisa de escritores como Clarice Lispector: o que os mestres e doutores vão dizer sobre escritores com o Sabino, que não deixam margem a dúvidas quanto ao que querem dizer em seus textos?
Eu cá com meus botões acho ininteligibilidade e obscurantismo um terreno propício demais ao embuste. E outra coisa: confundem as esquisitices da Clarice como manifestações super-refinadas de seu talento. Que nem essa coisa de dizer que o suicídio da pobre Ana Cristina César foi o último gesto poético dela… Me poupem, me poupem. A moça estava ruim da cabeça, certamente sofrendo horrores, e vocês vêm me falar em último gesto poético?
Pra fechar, se é que é verdade aquela história que a Clarice comeu uma barata, eu não vejo também nisso qualquer significado artístico relevante. Toda mulher pira de vez em quando. Toda. Faz parte do script delas. Mas como a Clarice era quem era, começaram a teorizar em cima do fato. Se ela fosse minha mulher, eu me limitaria a dizer: que coisa mais nojenta, sô. Vai escovar os dentes, vai. Depois vem cá me dar um beijo.
Sacramentais
novembro 26, 2009
“Dê-me o poder de fazer qualquer coisa em vão.” A. L.
Imagem e citação polêmicos fora do contexto, mas que estão aqui só para comentar a visão de alguém sobre como ele enxerga as pessoas que exibem sua religiosidade em paramentos. Para ele, trata-se de ateus perversos (e cínicos, pelo que entendi), narcisistas e inescrupulosos (também pelo que apreendi).
Devemos, então, adotar a ditadura laicista e reprimir aqueles que gostam de se identificar com religiões? Isso é muito perigoso. Eu percebo que o “politicamente correto” em termos ocidentais e iluministas logo uniformizará as pessoas como num regime autoritário em que ninguém mais vai usar crucifixos, ninguém mais vai usar sua camiseta hindu, as muçulmanas serão proibidas (e não necessariamente para sua felicidade) de se vestirem tipicamente e, mais um pouco de tempo depois, você também não vai mais poder se tatuar nem colocar um piercing sob risco de “ferir a individualidade do próximo” manifestando a sua. Parece absurdo, não é? Então espere até acordar nesse mundo que se levanta aos poucos, silenciosamente e com argumentos tão polidos e convincentes.
Frontispício, nefelibatismos e mais da última flor do Lácio
setembro 23, 2009
Nunca tive a oportunidade de usar esta palavra (frontispício) e acho por bem criar uma ocasião para não desperdiçar a aprendizagem da língua.
Estava eu, Livia Drusilla, desesperada (novidade) com meus projetos quando uma palavra (sentença) de consolo me cai no colo ao acaso. Eu, como uma bibliomante (também nunca pude usar essa palavra), abria aleatoriamente o Culturas Híbridas do Canclini e lá estava no frontispício (aham!) do livro a seguinte citação (em espanhol, apesar do autor ter nome francês):
“La vida personal, la expresión, el conocimiento y la historia avanzam oblicuamente, y no directamente, hacia fines o hacia conceptos. Lo que se busca demasiado deliberadamente, no se consigue.” (Maurice Merleau-Ponty)
O que tenho eu procurado “demasiado deliberadamente”? Acho que nada, porque deliberar já demanda muita energia, então, quando delibero, já estou tão cansada que vou fazer outra coisa (descansar, dÂr!) em vez de procurar o que seja…
Para que este post pareça ter tido um propósito, ficamos neste ponto de consolação (ou de angústia): a vida é oblíqua, portanto, sigamo-la obliquamente. Ou será que seguir obliquamente o que é oblíquo é desviar ainda mais o caminho?
Engraçadinho
setembro 20, 2009
POEMA ESCRITO POR ELE (o noivo):
Que feliz sou eu, meu amor!
Já, já estaremos casados,
o café da manhã na cama,
um bom suco e pão torrado
Com ovos bem mexidinhos
tudo pronto bem cedinho
depois irei pro trabalho
e você para o mercado
Daí você corre pra casa
rapidinho arruma tudo
e corre pro seu trabalho
para começar seu turno
Você sabe que de noite
gosto de jantar bem cedo
de ver você bem bonita
alegre e sorridente
Pela noite mini-séries
cineminha bem barato
nunca iremos ao shopping
nem a restaurantes caros
Você vai cozinhar pra mim
comidinhas bem caseiras
pois não sou dessas pessoas
que gosta de comer fora…
Voce não acha querida
que esses serão dias gloriosos?
Não se esqueça meu amor
que logo seremos esposos!
POEMA ESCRITO POR ELA (a noiva)
Que sincero, meu amor!
Que oportunas tuas palavras!
Esperas tanto de mim
que me sinto intimidada
Não sei fazer ovo mexido
como sua mãe adorada,
meu pão torrado se queima
de cozinha não sei nada!
Gosto muito de dormir,
até tarde, relaxada
ir ao shopping fazer compras
com a Mastercard dourada
Sair com minhas amigas,
comprar só roupa de marca
sapatos só exclusivos
e as lingeries mais caras
Pense bem,que ainda há tempo
a igreja não está paga
eu devolvo meu vestido
e você seu terno de gala
E domingo bem cedinho
pra começar a semana,
ponha aviso num jornal
com letras bem destacadas
HOMEM JOVEM E BONITO
PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
POR QUE SUA EX-FUTURA ESPOSA
MANDOU ELE IR PRA MERDA!!!!!!
Máscaras – você usa
setembro 1, 2009

Um tipo de pessoa de que não gosto é aquele que critica os mascarados: “Ah, odeio gente falsa, que mostra ser uma coisa quando é outra.” Outro tipo de que não gosto, claro, é do tipo de gente mascarada. Aí, de um modo ou de outro, eu não gosto de mim, seja porque falo mal dos mascarados, seja porque uma hora ou outra uso máscaras – aliás, como você!
E quando usamos máscaras? Digo que sempre. Às vezes é uma máscara fina, mais próxima dos contornos reais do nosso rosto. Em outras ocasiões é uma máscara espessa, enfeitada. Pode até ser, também, uma máscara mais feia que nosso rosto (quando nos odiamos nos comportamos como monstros que não somos de fato) – mas sempre há uma máscara.
O que me trouxe a todas essas reflexões dispensáveis além do ócio depois de uma longa, cansativa e pouco reconhecida jornada de trabalho?
Talvez o fato de que justamente no meu trabalho eu ando estressada demais e estou vendo a hora de dizerem que eu não sou boazinha como parecia ser. Afinal, me contrataram como uma pessoa “calma, organizada e equilibrada” e, nos últimos tempos, eu não ando assim. Mas será que era máscara que eu estava usando quando vendi essa imagem? E agora? Será que também não estou usando uma máscara de malvada e estressada para chamar atenção para demandas que considero justas?
Afinal, respondo que sempre usamos máscaras e que isso não é um problema – ora, não sejamos hipócritas: quem conhece o próprio rosto? Todo mundo usa máscaras o tempo todo: você jamais poderá ter certeza de que se viu no espelho.
Viva o baile de máscaras! A vida é um carnaval!
4:44 am
Pra você que me faz sonhar contigo às noites que não deveriam ter sonhos e me acorda de madrugada para me lembrar o que pode ser amor…
Ela se arrastava na praia no meio da noite. Teria que dormir ao relento e pensava em como era mais cômoda a vida dos funcionários públicos em férias e dos estrangeiros que podiam pagar hotéis e dormir em segurança. O homem que lhe pagara o jantar poderia tê-la convidado para dormir com ele. Agora ela quase desejava que ele o tivesse feito mas, horas antes, a simples idéia lhe causara repulsa.
O cenário da praia escura era-lhe onírico porque, apesar de não haver luar, ela percebia claridade suficiente para prosseguir até a placa amarela onde estava escrito em tinta vermelha: Gipsy Cards, Tarot. Ali ela dormiria aquela noite, lembrando-se da mulher com o estranho jogo de cartas e o que ela lhe predissera:
- Você vai voltar – e ela depositou na toalha sobre a areia a carta com a figura de um navio engraçadinho, parecido ao que uma criança desenharia. A seguir: – Mas olha só o que está no teu caminho – e ela depositou atravessado sobre essa carta uma outra, formando as duas uma cruz. Essa carta parecia um navio fantasma ou o esqueleto de uma embarcação naufragada que agora navegava sobre o mar de uma outra dimensão. Deu a seguir a interpretação: – Pode ser que você não queira voltar e esse é o maior obstáculo…
Lea arrumou-se sobre a toalha e encolheu-se para tentar dormir. Até sabia com o que sonharia. Há certos pensamentos que uma pessoa tem antes de dormir que se desenvolvem em sonhos quase conforme nossa vontade consciente. Era ótimo imaginar coisas boas e desejáveis e saber que elas seriam reais ao menos numa outra realidade.
Cão sem dono (adaptação de livro de Daniel Galera)
maio 9, 2009

Uma crítica interessante ao filme Cão sem dono (Beto Brant e Renato Ciasca, 2007) escrita pelo ótimo Luiz Carlos Oliveira Jr.:
“O protagonista de Cão Sem Dono é Ciro, jovem multitalentoso, inteligente, plenamente capaz, mas cuja vida parece de alguma forma estacionada, inflacionada de instantes intensos mas carente de ambições concretas, chapada no presente, desconectada de um horizonte. Retrato bastante pertinente de uma parcela da juventude atual, em falta ou em excesso de opções – adolescentes duráveis (…)”
Aplicável?
Luciana Avelino da Silva
abril 25, 2009
Carmen Miranda não era flor que se cheirasse
Hitler era uma mulher que tomava hormônios para criar barba (especificamente, aquele bigodinho); Mussolini e Mao Tsé-Tung também eram mulheres (mas gostavam da cara e, no caso do Mao, também cabeça, limpinha) e Thatcher é lésbica e não gosta de transexuais.
A verdade segundo Luciana Avelino da Silva…
